Mudas Meurer
 
  PAISAGISMO E ECOLOGIA URBANA


Talvez poucos são os que pensam que a ecologia e o paisagismo estejam tão intimamente relacionados e, menos ainda os que conseguem, de pronto, compreender o termo Ecologia urbana e sua relação com o paisagismo. Não é de se estranhar, pois quando se fala em Paisagismo, sempre se tem em mente a questão puramente estética na criação e formação dos espaços, onde as massas de vegetação são meros elementos dessa estética. No entanto, cabe lembrar que o termo ECOLOGIA : do grego, significa o “estudo da casaâ e que aqui o termo casa se refere ao nosso meio como um todo, portanto o Meio ambiente e assim todos os espaços criados e interligados na totalidade com os seus elementos incluindo o Homem. Neste caso, não cabe mais que se pense somente a questão estética isoladamente, mas também as suas relações com o social, econômico, cultural e funcional dos espaços 

São Paulo hoje vive um grande dilema para deixar de ter o estigma de ser uma das cidades mundiais mais áridas. Conforme dados, sabe-se que a sua relação Área verde/habitante é uma das piores, ou seja: 4,6 m² / hab, quando o ideal é de 14 m² / hab; isto ainda que se considere a área de arborização de calçadas. Aqui, outros dados também inquietantes: a poluição visual em áreas públicas é na ordem de 40%, o lançamento diário de esgoto doméstico no rio Tietê está ao redor de136 t/dia, e a cobertura vegetal (mata nativa) na grande São Paulo é por volta de 21%, ainda que tenha crescido em 6% é mal distribuída. Isto reflete uma baixa qualidade de vida aos seus habitantes, conforme os índices do IDH. Ainda que sejam apenas números, deve-se entender que o descaso ou uma insignificante preocupação do poder público, e talvez privado, com a promoção e criação de áreas verdes se traduz na falta de pequenos jardins e praças, arborização de ruas e avenidas e mesmo as grandes áreas como os parques. Desta forma tem-se o ambiente urbano cada vez mais hostil ao pleno desenvolvimento de seu gestor o Homem, o que, aliás, se traduz na maior contradição da nossa existência no planeta. 
Talvez se esteja no momento de repensar as atitudes e decisões frente a esse “NOVO ESTAR NO PLANETAâ€, ou seja: a revolução ÉTICO-ESTÉTICA que se fundamenta na ECOSOFIA, onde o Homem se insere no ambiente como parte e não mais como dono e explorador. Dessa maneira, ocorre uma nova concepção dos termos Ecologia e Ambientalismo, levando o Homem à compreensão do que seja a Sustentabilidade. 
Cabe então lembrar da grande participação, nesse novo conceito, do grande estudioso e paisagista brasileiro Roberto Burle Marx , quando imprimiu em seus projetos a valorização da flora e fauna brasileiras, sem cair no extremismo nacionalista. Dessa maneira, dando novos rumos e valores às formas exóticas e orgânicas de um lugar tropical, favorecendo os espaços e a “gente†que dele faz uso. Assim, pode-se dizer que ele foi o precursor do que hoje se chama DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, já que sempre priorizou o uso das “coisas brasilisâ€. 
Portanto, a ecologia urbana quando pensada e tratada a partir do paisagismo não se furta das questões do DESURBANISMO. Esta realidade é própria da cidade que admite o desenvolvimento única e exclusivamente ao crescimento do “SKY-LINEâ€, isto é: quanto mais edifícios “maior†e “melhor†é a cidade. No entanto, não se pode acreditar e comprar essa idéia, onde somente o edifício se basta como paisagem urbana, mesmo que ele faça parte dela. Então, o termo desurbanismo é próprio e caracteriza o fato de que somente o emaranhado de prédios, ruas e avenidas sejam suficientes para a definição do que seja a cidade, sem, no entanto, avaliar os aspectos menos adequados ao “bem viver†nela. É preciso lembrar e “comprar†sim a idéia que a paisagem urbana é caracterizada pela relação entre os edifícios e os espaços entre eles, devendo ser tratada de tal maneira que possibilite um ambiente urbano menos hostil aos seus “urbanóidesâ€. 
De certa forma, isso somente será possível a partir do momento em que seja trabalhado, de forma consciente e responsável, toda e qualquer decisão de criação e manejo dos espaços urbanos. Para tanto, é preciso considerar a sustentabilidade de todos os seus elementos e suas relações e inter-relações com o todo, pois não sendo assim se perpetuará o cenário vigente, em que o Homem constrói sua própria armadilha, aliás, “mot†de todo e qualquer noticiário da atualidade.




 
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